Oi, sabia que eu escrevo contos?
Na verdade estou em déficit com isso tem anos. Mas agora quero voltar, e fui dar uma olhada nos que já escrevi. A maioria é muito ruim, mas pude separar alguns que dá pra salvar. O melhor deles está sendo retrabalhado (um dia sai), e o segundo melhor está incompleto (ainda pensando se termino ou não). O terceiro e o quarto são muito bons, eu adorei! Porém estou pensando em formas de continuar ambos e transformar em algo maior.
Então o que sobrou? Meus dois piores contos? Dos que se salvam, sim. Mas que ainda podem ser interessantes a alguém que queira ler.
Os dois são bem diferentes, em tamanho e temática. Deixo aqui então na ordem primeiro o menor e mais pesado, e depois o maior e mais leve.
O primeiro se chama Uma Breve História de Amor (2016), e é um conto minúsculo de humor trágico com zumbís. Pode ser desagradável. O segundo se chama Pra quê adotar um gato? (2017) e é um conto mais leve e curioso de ficção científica. O final pode ser decepcionante ou confuso, mas cada um que julgue como queira.
Ah, e deixo a vocês também, minha fanfic de Doctor Who, A Galáxia na Ponta do Universo (2015). Quem for fã da série e quiser ler, está no blog 137 Cultural: https://codigo137.blogspot.com/2015/04/conto-doctor-who-galaxia-na-ponta-do.html
Mas bem, já falei demais e tô enrolando. Se gostarem ou não dos contos, espero que minha escrita atual agrade vocês mais do que a do meu eu da década passada (quando eu voltar a escrever contos).
Boa leitura.
Uma Breve História de Amor
Conheci Rosângela em um lindo e ensolarado leito de hospital. A luz da janela refletia em seu tio ali imóvel com papa escorrendo pela boca.
Seus olhos profundos e vermelhos fitavam meus ossos a mostra na perna que seria em breve amputada.
Não sei dizer ao certo se tivemos tempo de nos apaixonar. Ela vinha visitar o tio as vezes, que ficava no mesmo quarto que eu. Passávamos horas e horas em silêncio. Nem o tio dela falava nada, nem eu tinha coragem de dizer alguma coisa.
Passava aquelas horas de silêncio formulando conversas. O que eu poderia perguntar? Não tinha coragem nem de dizer bom dia.
E se ela perguntasse o que me aconteceu? Como eu ia dizer que bebi veneno, me arrependi, e um carro me atropelou no caminho do hospital? Seria interessante dizer que fiz endoscopia, e irei perder as duas pernas?
A oportunidade de conversa surgiu quando o tio dela começou a agonizar. Rosa tentou acionar o aparelho de chamar a enfermeira, mas não funcionava. Então eu disse "eu chamo pelo meu" e ela respondeu agradecendo.
Ela disse "obrigada". Mas o que eu poderia dizer em seguida? Logo a enfermeira apareceu e já perdi minha chance de conversa. Nunca mais terei outra.
A enfermeira se aproximou e arrancou seu nariz na mordida. Fiquei horrorizado e não entendi o motivo. Até que mais gente entrou no quarto, todos com os rostos desfigurados. Só então percebi que o rosto da enfermeira também estava em escárnio. E agora já devorava o rosto de Rosângela, que logo ficou igual a eles. Ela então, descontroladamente, devorou o próprio tio.
Eu presenciava tudo, apenas esperando a minha vez. Mas talvez minhas pernas escarnecidas tenham passado a impressão de que sou um deles. Então todos foram embora.
Estou aqui faz quatro dias. Não tem mais soro, nem água. Minhas pernas já apodrecem e logo irei morrer de fome, ou de doença.
Mas ao menos pude ouvir Rosângela me dizer algo antes de não poder dizer mais nada.
Pra quê adotar um gato?
— Pra quê adotar um gato se a gente já tem um cachorro?
— Pra fazer companhia a ele.
— Mas cachorro não gosta de gatos.
— Como você pode saber, se eles nem se conhecem ainda?
Rina nada disse. Apenas pensou “é mesmo”.
A feira estava acontecendo no Centro de Convenções de Pernambuco. Não houve grande divulgação, as pessoas diziam umas às outras que iria acontecer, até que chegou a sua mãe. Mesmo já criando um cachorro, que era muito amado e supria de forma satisfatória a necessidade básica e familiar do ser humano de se ter um bichinho. A mãe de Rina achou que seria uma ótima idéia aumentar a família com um gato, que poderia deixar tudo ainda mais feliz e agradável.
Rina só conseguia pensar em desavenças entre o gato e o Touro. Apesar do nome, o cão não se parecia com um touro. Era magro e saltitante, mas a criança achou que seria uma ótima ideia batizar o animal dessa forma. Como se chamaria o gato? Rina precisaria olhar para o gatinho para poder pensar em algum nome que ficasse legal nele. Mesmo que o significado não apresentasse semelhança com o gato.
O local era grande, porém a feira em si ocupava apenas um pequeno espaço do centro de convenções, e embora não fosse extensa, haviam várias pessoas circulando e olhando mais os produtos relacionados a gatos do que os bichinhos para adoção. As pessoas chegavam com seus gatos em pequenas gaiolas e as empilhavam com o nome do tutor. Havia uma moça explicando que os gatos eram previamente cadastrados, os que eram doados passavam por castração, e, quando adotados, os animais eram microchipados com o nome e o endereço do novo dono. Não tinham GPS, mas de alguma forma havia como saber se a pessoa o abandonasse.
— Certo — disse a mãe de Rina. — Olha essas coisinhas, que fofura! Filha, você pode olhar os gatos, eu vou ver essas barraquinhas. Tem muita coisa linda aqui, meu deus. Tem até pra cachorro…
— Tá bem, mãe.
Rina ainda não sabia se queria mesmo adotar um gato, então esperava que algum a cativasse e a fizesse ter vontade de levar pra casa.
Havia gatos de todos os tipos e tamanhos. A menina olhava e não se contentava muito. Em meio a miados e pelos, ela esperava algo que se diferenciasse de seu cão; algo que ela não tivesse ainda, e mais importante, que fosse preguiçoso o suficiente pra não arranhar as coisas dela.
Rina se afastou um pouco da feira.
— Ok, Google! Pra quê adotar um gato?
— Num futuro próximo, conglomerados flutuam até as estrelas, elétrons e luzes viajam pelo universo, o avanço da computadorização, entretanto, ainda não eliminou nações e grupos étnicos.
— É o quê?
A menina percebeu que aquilo não era o celular falando. Olhou em volta. Só havia um gato ao seu lado.
— Você fugiu? — O gato apenas a olhava. — Tem alguém assistindo documentário aqui?
— Só estou lhe dizendo que o seu celular pode acabar destruindo você e sua espécie — disse o gato.
— Meu deus, você fala! Você é um robô? É por isso que tá solto por aí, alguém deve ter perdido.
— Menina, não tá vendo que eu sou um gato?
— Mas você fala. Então é um robô.
— Tem robô que não fala.
Rina nada disse. Apenas pensou “é mesmo”.
— Veja, sei que é difícil de acreditar, mas eu sou realmente um gato.
— Então gatos falam?
— Não, gatos não falam.
— Mas você é um gato.
— Veja bem, me escute. Eu faço parte de um grupo seleto de gatos, que, por um acaso, falam. Essa feira é só uma fachada pra uma feira secreta por trás dessa, onde estão se livrando da gente.
— Isso é muito louco!
Mas Rina pôde ver com seus próprios olhos. Não muito longe da feira, numa parte subterrânea do Centro de Convenções, havia uma outra. Também com gatos. Era como a que ocorria acima, mas seus transeuntes eram estranhos e familiares homens de gravatas e ternos intimidadores.
— Espera, eu já vi aqueles homens na TV. São presidentes?
— Alguns líderes mundiais e seus seguranças.
— Por que presidentes iriam se arriscar de vir todos ao mesmo lugar pra adotar gatos falantes? Poderiam mandar representantes. Isso não faz sentido.
— Você está aqui falando com um gato, nada faz sentido.
— Mas o que vocês são? Robôs?
— Não, eu já disse que a gente não era robô.
— Mutantes?
— Éramos pessoas. Humanos, assim como você. Mas puseram nossos cérebros em gatos e agora querem se livrar da gente.
— Colocando pra adoção?
— É.
— Realmente nada faz sentido.
— Mas se você queria ver um robô, lá está um — o gato indicou o homem laranja com um topete estranho.
— O presidente dos Estados Unidos?
— Sim, ele é um bot, tipo esses do Twitter, controlado por pessoas odiosas que não tem bom senso.
— Não sei, eu não tenho Twitter.
— Vê as coisas que ele fala na TV?
— Eu não vejo TV.
— Sorte sua.
— Mas então, o que a gente faz?
— Não faço ideia, mas é bom que ninguém lhe veja.
Mas então alguém surgiu à frente deles.
— Olá — dizia a pessoa, uma mulher de cabelos curtos e rosto estranho. — Já escolheu seu gato?
— Sim, sim, eu vou levar esse. Minha mãe está assinando as coisas que tem pra assinar.
O gato falante vagarosamente foi ao colo de Rina.
— Só que não é pra passear desse lado, os gatos aqui são bem doentes e podem passar pra você.
— Tudo bem, eu vou procurar minha mãe.
Os dois então voltaram à feira comum. A mãe de Rina ainda estava vendo as coisas da barraquinhas.
— Mas então, o que a gente faz? — perguntou Rina.
— Eu vou lá soltar todo mundo.
— Você é doido?
— E o que você sugere?
— Ah, solta sim. Os bichinhos.
O gato olhou para Rina com reprovação. Silêncio de alguns instantes.
— Você precisa falar para aquela moça que não acha a sua mãe, e que me perdeu. Quando ela for te ajudar a procurar, eu vou tentar soltar os gatos.
— Mas a gente ainda vai ter que te achar depois.
O gato nada disse. Apenas pensou “é mesmo”.
— Fala que desistiu e que quer um cachorro.
— Eu tenho um cachorro.
— Que quer outro gato.
— Tá bem, então.
Os dois foram executar seu plano mirabolante. E não tem muito o que contar a respeito, porque foi exatamente isso. E deu certo. Por incrível que pareça, os líderes mundiais, que mais conversavam entre si, e os seguranças, que mais conversavam pelos celulares entre si, não notaram o gato, abrindo gaiola por gaiola, e depois todos os gatos fugindo rápida e cautelosamente.
Rina, então, acompanhada da mulher estranha, encontrou sua mãe e agradeceu a moça, que voltaria para descobrir que os gatos haviam fugido. Ao ir falar com a mãe, o gato reapareceu. Rina pegou-o do chão e disse “mãe, escolhi esse gato”, de forma tão fria que sua mãe e o gato ficaram intrigados. Ao chegar em casa, em seu quarto, a menina e o gato puderam conversar.
— Você sabe que eu não vou ficar com você, né?
— Eu não queria um gato, mesmo. Vou dizer à minha mãe que você fugiu.
— Você realmente não gosta de gatos?
— Não.
— Melhor assim.
— Mas onde estão os outros, que você soltou?
— Olha pela janela.
Havia vários gatos circulando pela rua, em frente da casa. Esperando.
— Tomaremos nosso caminho.
— Onde vocês vão?
— Formar nossa Sociedade dos Gatos Falantes.
Então o gato se foi.
E, pelos olhos mecânicos da menina robô, a moça de cabelos curtos e rosto estranho observava, enquanto mantinha Rina em cativeiro.
Por Magdiel em 20/06/2025
Magdiel é ume artista de Recife, fundador do coletivo 137 Cultural, e colaborador de diversos outros projetos envolvendo arte e cultura independente. É mais conhecido por seus cartoons humorísticos publicados na internet, e pela difusão do movimento “arte tronxa”.
Magdiel desenha, escreve, edita, e faz coisas na internet desde 2010, embora faça arte desde que nasceu.
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Seus contos são incríveis, parabéns! Uma escrita cômica, surpreendente e acida, que me fez lembrar de textos que escrevia na minha adolescência, tempos mais simples e que infelizmente não voltam. Mas me deu coragem de tentar escrevê-los novamente.
Obrigado =)
Olha, não vou me arriscar na crítica literária porque não tenho noção nem de pra onde vai esse tipo de análise mas me atenho ao fato: ambos os contos poderiam muito bem ser pesadelos que teria kkkkkkkkkkk. Amo a escalada pra uma resolução mirabolante do nada, uma virada de sonho mesmo. Obrigade por compartilhar textos "imperfeitos" ao teu ver enquanto estás em processo de lapidação + retomada dos teus contos, é massa compartilhar os processos! Me tocou muito isso pois estou voltando a criar depois de ter neném, trazendo de volta coisas que ficaram pra trás mas bate um medo estranho, sei lá... Da mediocridade e seus derivados. Seja lá qual for o motivo que te levou a deixar esses contos na gaveta por um tempo, agradeço profundamente pela publicação aqui! Tenha 1 bom diaaaa